Da instabilidade à invenção
meu processo de recriação de A rose is a rose de Diana McIntosh
Palavras-chave:
agência do performer, criatividade distribuída, pesquisa artística, Diana McIntosh, processos criativosResumo
Problema
Partindo de minha prática como performer-pesquisadora, este trabalho narra meu processo de recriação de A rose is a rose (2006), para piano e digital delay, da compositora canadense Diana McIntosh. Ao acessar seu acervo para preparar um concerto em sua homenagem, encontrei um manuscrito intensamente revisado, com anotações em cores diferentes, trechos riscados e outros ausentes. A partitura apresentava-se aqui como o registro de um processo criativo em aberto. Além disso, pouco se sabe sobre o dispositivo de digital delay utilizado por McIntosh. Por outro lado, há diversas gravações realizadas pela compositora, com destaque aquela lançada no álbum Pinnacles (McIntosh, 2012). Entre esse manuscrito instável e as gravações, que variam entre si, emerge uma questão central: onde reside a identidade da obra? Nesse cenário, esta pesquisa busca investigar como a identidade de A rose is a rose se configura a partir dos materiais existentes e minhas escolhas criativas.
Objetivos
O objetivo principal é compreender como manuscrito e gravações alimentam minha agência criativa na recriação de A rose is a rose. Apoio-me na noção de criatividade distribuída proposta por Clarke e Doffman (2017) e na ideia de performance como invenção de mundos desenvolvida por Nogueira (2016), sempre a partir da minha prática concreta de experimentação. Proponho aqui um diálogo com os vestígios deixados pela compositora, onde atuo como um mediador criativo. Isso inclui também a colaboração com o compositor Henry Ng para o desenvolvimento de um novo patch em MAX (A rose is a rose 1.1), que atualiza a camada tecnológica da obra sem perder de vista seu espírito original.
Principais contribuições
Dialogando com estudos sobre performance gravada (Leech-Wilkinson, 2009), entendo as gravações de McIntosh como traços de um modus operandi da compositora, e não como modelos a serem copiados. Meu estudo do manuscrito e a experimentação com o patch colocaram em evidência a instabilidade da própria ideia de “obra”. Nesse sentido, aproximo-me das discussões de Cook (2006, 2013) e Zampronha (2000) sobre o estatuto da obra musical, a partir de uma situação concreta em que lacunas precisaram ser preenchidas para que uma performance se realizasse. A agência do performer, nesse contexto, não é suplementar. Ela torna-se estrutural. Tal condição aproxima-se das práticas de compositoras-performers descritas por Bosma (2006) e Gioti (2021), nas quais criação, técnica e performance se entrelaçam de maneira indissociável.
Implicações
Este trabalho sugere que A rose is a rose pode ser compreendida como um ecossistema. A partitura funciona como um catalisador do processo criativo do performer (Zampronha, 2000). Nessa ecologia, notação, gravação e performance ao vivo se retroalimentam. Reforça-se, assim, a agência criativa do performer-pesquisador como participante ativo na reinvenção contínua da obra musical, como um agente que assume, explicitamente, sua responsabilidade criativa.
Palavras-chave
processos criativos, agência do performer, pesquisa artística, criatividade distribuída, Diana McIntosh
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