Entre estatísticas e experiências: mulheres e Ansiedade de Performance Musical na música de concerto
Palavras-chave:
ansiedade na performance musical; musica e cognicao; mulheres musicistas;Resumo
Problema/questão
A Ansiedade de Performance Musical (APM) é amplamente investigada e frequentemente associada a fatores individuais, como traços de personalidade, padrões cognitivos e predisposições individuais (Valentine, 2002). Um achado recorrente nesses estudos é a indicação de níveis mais elevados de APM entre mulheres quando comparadas a homens (Dempsey & Comeau, 2019; Fernholz et al., 2019; Iusca & Dafinoiu, 2012; Papageorgi, 2022; Thomas & Nettelbeck, 2014). Embora esse padrão seja consistentemente reportado em diferentes contextos, as interpretações oferecidas para essa diferença tendem, em muitos casos, a privilegiar perspectivas disposicionais, com menor atenção às dimensões socioculturais que atravessam as experiências de prática e performance musicais. Essa lacuna torna-se particularmente relevante no contexto da música ocidental de concerto, cujas tradições, historicamente moldadas por hierarquias patriarcais de gênero, contribuem para a configuração diferenciada das trajetórias performativas de mulheres (Rosário & Cunha, 2022; Santos, 2019). Nesse cenário, embora disparidades estatísticas de gênero nos níveis de APM sejam amplamente reportadas na literatura, o campo ainda dedica pouca atenção a compreender como essas diferenças são vivenciadas e interpretadas por musicistas em suas experiências de prática e performance.
Objetivos
O estudo discute criticamente a relação entre gênero e APM, integrando evidências quantitativas e qualitativas a fim de ampliar a compreensão de como contextos socioculturais e experiências situadas de performance podem influenciar como mulheres experimentam e atribuem significado à APM.
Método
O estudo articula dados provenientes de duas etapas empíricas. A primeira corresponde a um levantamento quantitativo realizado com estudantes de música em contexto de ensino superior, com 123 participantes, no qual foram analisados níveis de APM e diferenças entre gêneros. A segunda etapa consiste em uma investigação qualitativa baseada em entrevistas semiestruturadas com 6 flautistas mulheres, analisadas por meio da Interpretative Phenomenological Analysis (Smith, Flowers, & Larkin, 2009), buscando compreender como as participantes narram suas experiências de ansiedade, expectativas de desempenho, situações de exposição performativa e interações presentes nos contextos da prática musical.
Resultados e/ou Principais contribuições
Os dados quantitativos corroboram a tendência amplamente reportada na literatura de níveis mais elevados de APM entre mulheres. A análise das entrevistas evidencia narrativas que associam a experiência da ansiedade a expectativas de desempenho, processos de comparação social, julgamento avaliativo e dinâmicas institucionais presentes nos contextos da música de concerto. Ao articular evidências quantitativas e qualitativas, o estudo contribui para interpretar as diferenças de gênero observadas na APM a partir das experiências situadas de performance e das interações que caracterizam os contextos musicais.
Conclusões e/ou Implicações
Os resultados sugerem que os níveis mais elevados de APM observados em mulheres podem ser melhor compreendidos quando situados nos contextos sociais e culturais que estruturam as experiências de performance na música de concerto. Ao enfatizar as dinâmicas de exposição e interação que atravessam a prática musical, o estudo evidencia como mulheres vivenciam e interpretam a ansiedade em contextos performativos. Além disso, aponta para os limites das abordagens que tratam o gênero exclusivamente em termos binários, indicando a necessidade de futuras investigações que considerem a diversidade de identidades e experiências no estudo da APM.