Avaliação das Habilidades Musicais em Pacientes Afásicos

Autores

Palavras-chave:

Amusia, afasia, percepção musical, MBEA, BDAE.

Resumo

Indivíduos com lesão cerebral adquirida podem apresentar déficits em múltiplos domínios cognitivos, uma vez que as lesões frequentemente se estendem além de regiões estritamente focais (Sihvonen et al., 2017). A afasia após acidente vascular cerebral tem sido frequentemente associada a prejuízos nas habilidades musicais, comumente referidos como amusias (Peretz, Champod & Hyde, 2003). Considerando a possível sobreposição entre redes neurais envolvidas no processamento musical e linguístico (Patel, 2013), torna-se relevante investigar de forma sistemática o perfil de percepção musical nessa população clínica.  O presente estudo teve como objetivo principal caracterizar as habilidades de percepção musical em indivíduos com afasia adquirida como consequência de acidente vascular cerebral (AVC) e, secundariamente, explorar sua relação com medidas linguísticas selecionadas.  Participaram do estudo vinte adultos com idades entre 50 e 78 anos, incluindo 10 indivíduos com afasia pós-AVC e 10 participantes controle neurologicamente saudáveis, pareados por idade. As habilidades linguísticas do grupo com afasia foram avaliadas por meio de quatro subtestes do Boston Diagnostic Aphasia Examination (BDAE), que são as tarefas de Discriminação de Palavras do subteste de Compreensão Auditiva; a tarefa de Repetição de Palavras e as tarefas de Repetição de Frases de Alta e Baixa Probabilidade dos subtestes de Repetição; e a Figura prancha roubo de biscoitos, do teste de Boston. As habilidades de percepção musical foram mensuradas a partir da Montréal Batery of Evaluation of Amusia (MBEA), contemplando os subtestes de escala, contorno, intervalo, ritmo, métrica e memória musical. Considerando as tarefas linguísticas, os indivíduos com afasia apresentaram desempenho preservado na tarefa de Discriminação de Palavras e desempenho reduzido nas tarefas de Repetição de Palavras e de Frases. Em relação à percepção musical, o grupo com afasia apresentou desempenho significativamente inferior ao grupo controle nos subtestes de Intervalo e Ritmo da MBEA, enquanto não foram observadas diferenças significativas entre os grupos nos demais subtestes, incluindo Memória Musical.  Embora os pacientes afásicos tenham apresentado dificuldades na transcodificação audiofonatória, com os participantes fluentes superando os não fluentes na repetição de sentenças, todos mantiveram uma comunicação funcional e eficaz. No entanto, o perfil musical revelou uma heterogeneidade marcante, no qual houve prejuízos significativos nos componentes analíticos de Intervalo e Ritmo, frequentemente associados a lesões no hemisfério esquerdo, enquanto a Memória Musical permaneceu inesperadamente preservada em comparação ao grupo controle. Os achados de prejuízos significativos nos aspectos analíticos da percepção musical em contraste com a estabilidade da Memória Musical destacam a heterogeneidade das habilidades de percepção musical na afasia e reforçam a inclusão de avaliações baseadas em música em contextos clínicos, pois podem contribuir com informações complementares relevantes para o planejamento de intervenções de reabilitação baseadas em música.  

Biografia do Autor

Ana Clara Nunes Bastos, Universidade Federal de Minas Gerais

Graduanda em Musicoterapia pela UFMG e bolsista de Iniciação Científica (CNPq). Atua em pesquisas sobre processos cognitivos e neurociência da música, com foco na memória musical e nas habilidades de percepção em populações clínicas.

Marilia Nunes-Silva, Universidade Federal de Minas Gerais

Doutora em Neurociências pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela UFMG, Especialista em Arteterapia pela Faculdade Vicentina (FAVI), Musicoterapeuta pela Censupeg, possui graduação em Música (Flauta doce) pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e graduação em Psicologia pela UFMG. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Neuropsicologia, Psicologia e Educação e Psicometria, e na área de Música, com ênfase em performance em música barroca (Flauta doce e canto). Atuou como professora designada de Neuropsicologia, Psicodiagnóstico infantil e Psicologia da Educação no curso de Psicologia da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), campus Divinópolis, e de metodologia de ensino e flauta doce nos cursos de Licenciatura, Bacharelado e musicalização infantil na Escola de Música (ESMU) da UEMG. Atuou como professora efetiva da ESMU/UEMG, ministrando Psicologia e Educação, Flauta doce como instrumento musicalizador, Prática musical em conjunto, Práticas em Pesquisa (TCC) e Psicologia da Performance; e professora do Programa de Pós-graduação em Artes da UEMG, ministrando disciplinas sobre a relação entre Artes, cognição e Neurociências. Atualmente é professora do curso de Musicoterapia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e tem como principal área de pesquisa a Neuropsicologia da Música, desenvolvendo trabalhos sobre: Música, Memória e emoções musicais; Processamento cognitivo musical e modularidade; Amusias; Avaliação neuropsicológica das habilidades musicais; Música e relaxamento; Relações entre o processamento numérico e musical; Cognição musical e transtornos de aprendizagem; e psicologia da performance musical.

Erica de Araujo Brandão Couto, Universidade Federal de Minas Gerais

Possui graduação em Fonoaudiologia pela Universidade Estácio de Sá (1980), é bacharel em Psicologia pela Universidade Santa Úrsula (1984) , mestre em Educação Especial - Purdue University (1987) e doutora em Estudos Linguísticos pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais UFMG (2011). Professor adjunto do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da UFMG na área de Linguagem Oral e Escrita, atua como docente e pesquisadora na avaliação e reabilitação dos distúrbios adquiridos e degenerativos de fala e linguagem (afasia, disartria, apraxia e síndromes demênciais). Como especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) é pesquisadora na área de Saúde do Idoso e coordenadora científica do serviço de Fonoaudiologia do Instituto Jenny Faria de Atenção à Saúde do idoso e da Mulher do Hospital das Clínicas da UFMG. Desde 2010 é tutora de Fonoaudiologia da Residência Multiprofissional do Hospital das Clínicas da UFM, área de concentração Saúde do Idoso. 

Juliana Prieto Bruckner, Universidade Federal de Minas Gerais

Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (2007), Licenciatura em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (2008), um Máster (equivalente ao mestrado acadêmico) em Psicología de la Educación pela Universitat de Barcelona (2010) e Doutorado em Psicologia: Cognição e Comportamento pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia do Desenvolvimento Humano.

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Publicado

2026-07-13