Adaptação cultural e propriedades psicométricas da versão brasileira do Índice de Sofisticação Musical de Goldsmiths (Gold-MSI-BR).
Palavras-chave:
Sofisticação musical, psicometria, diferenças individuais, Gold-MSI, cognição musicalResumo
A sofisticação musical refere-se ao conjunto de habilidades, conhecimentos, comportamentos e formas de engajamento com a música que se desenvolvem ao longo da vida por meio de experiências formais e informais. A mensuração dessas diferenças individuais tem se tornado fundamental para investigações contemporâneas em cognição musical, permitindo compreender como experiências musicais moldam processos perceptivos, cognitivos e de aprendizagem ao longo da vida. Nas últimas décadas, o Índice de Sofisticação Musical de Goldsmiths (Gold-MSI, Müllensiefen et al., 2014) tornou-se um dos instrumentos mais utilizados internacionalmente para investigar diferenças individuais em musicalidade na população geral, sendo amplamente aplicado em pesquisas de cognição musical, psicologia da música e neurociências (Cui et al., 2023; Greenberg et al., 2015; Lad et al., 2022). No entanto, ainda são escassos instrumentos psicometricamente validados para avaliar esse construto no contexto brasileiro. Nesse sentido, o presente estudo teve como objetivo traduzir, adaptar culturalmente e validar a versão brasileira do Gold-MSI.
O processo de adaptação seguiu diretrizes internacionais para tradução e adaptação cultural de instrumentos psicológicos (International Test Commission, 2017), incluindo tradução independente, revisão por especialistas e avaliação de compreensão por participantes do público-alvo. As propriedades psicométricas do instrumento foram examinadas em uma ampla amostra brasileira (N = 1.295). Para avaliar a estrutura psicométrica do instrumento, foram realizadas análises fatoriais confirmatórias para testar a adequação do modelo multidimensional originalmente proposto para o Gold-MSI. Também foram analisadas consistência interna, estabilidade temporal por meio de teste-reteste e associações com variáveis demográficas. Os resultados apoiaram a retenção da estrutura multidimensional do instrumento no contexto brasileiro, com índices de ajuste satisfatórios para o modelo proposto. Análises em nível de item identificaram alguns itens cultural ou estatisticamente inconsistentes, cuja exclusão resultou em melhora dos índices de consistência interna e da validade de construto. As análises de teste-reteste indicaram estabilidade temporal adequada entre as subescalas. Modelos ANCOVA indicaram efeitos significativos, porém pequenos, para idade e anos de escolaridade, enquanto não foram observadas diferenças robustas associadas a sexo, raça/cor ou à interação entre essas variáveis após correção para múltiplas comparações. Em conjunto, os resultados fornecem evidências iniciais de validade e confiabilidade para a utilização do Gold-MSI-BR na avaliação da sofisticação musical em populações brasileiras. A disponibilização desse instrumento amplia as possibilidades de investigação empírica sobre musicalidade, aprendizagem e engajamento musical em diferentes regiões do país, além de facilitar comparações transculturais e fortalecer a integração da pesquisa brasileira às discussões internacionais em cognição musical.