Acompanhada, mas não sozinha: percepções sobre a viabilidade da carreira solista entre instrumentistas de sopro egressas no Peru
Palavras-chave:
mulheres músicas, solistas de sopro, visibilidade femenina, trajetórias profissionaisResumo
Problema/questão
Nas últimas décadas, a participação feminina no campo musical aumentou significativamente. No entanto, diversos estudos indicam que esse crescimento não se traduz necessariamente em uma representação equitativa nos espaços de maior visibilidade artística, como a atuação solista (Green & Mitchell, 2023; Pastor, 2022; Pinochet et al., 2021). Foram documentadas dinâmicas de invisibilidade feminina, estereótipos de gênero associados aos instrumentos musicais e processos de escrutínio diferencial (Casula, 2023; Placanica, 2021). No caso dos instrumentos de sopro, essas dinâmicas podem se intensificar devido às associações culturais que vinculam certos instrumentos à masculinidade ou feminilidade, o que influencia a escolha instrumental e as expectativas profissionais (Cumberledge, 2018; Stronsick et al., 2017). Contudo, a literatura concentra-se principalmente em análises históricas e estatísticas de participação, deixando relativamente inexplorada a dimensão experiencial a partir da perspectiva das próprias músicas. Nesse contexto, surge a seguinte pergunta de pesquisa: como as instrumentistas de sopro formadas em música percebem a possibilidade de se dedicar profissionalmente à interpretação como solistas no Peru?
Objetivos
O objetivo deste estudo é explorar como instrumentistas de sopro formadas em música percebem a viabilidade de desenvolverem uma carreira como solistas no contexto musical peruano. Além disso, busca identificar experiências formativas e percepções sobre dinâmicas de gênero que influenciam a configuração de suas trajetórias profissionais.
Método
O estudo adota uma abordagem qualitativa com desenho fenomenológico interpretativo orientado a compreender as experiências das participantes em relação à possibilidade de atuar como solistas. A população é composta por egressas de instrumentos de sopro no Peru, pertencentes às especialidades de madeiras e metais. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas que exploraram percepções sobre a figura do solista, experiências formativas, dinâmicas de gênero e decisões relacionadas à trajetória profissional. As entrevistas foram analisadas por meio de um processo de codificação interpretativa orientado à identificação de unidades de significado e temas emergentes. A análise seguiu uma lógica idiográfica que permitiu compreender cada experiência antes de identificar padrões compartilhados entre as participantes.
Resultados e/ou Principais contribuições
Os resultados apresentados correspondem a achados preliminares. Observa-se que a figura do solista é percebida como um papel associado a elevados padrões de virtuosismo e exposição pública. As participantes também mencionam a influência de fatores estruturais do campo musical, como a limitada presença de referências femininas solistas e as oportunidades restritas de visibilidade artística no país. Esses elementos configuram expectativas profissionais que priorizam outros campos de atividade musical, como a interpretação orquestral ou a docência.
Conclusões e/ou Implicações
Os achados preliminares sugerem que a visibilidade de modelos femininos e as experiências durante a formação acadêmica influenciam a construção das percepções sobre a viabilidade de uma carreira solista. Este estudo amplia a compreensão das trajetórias profissionais femininas na música acadêmica a partir de uma perspectiva experiencial, oferecendo evidências empíricas sobre como as instrumentistas percebem as condições do campo musical. Além disso, convida à reflexão sobre a formação musical e sobre a promoção de condições mais equitativas no desenvolvimento de carreiras interpretativas.