Investigação da relação entre o processamento musical e numérico na Síndrome de Williams
Palavras-chave:
Síndrome de Williams, Música, Dificuldades de Aprendizagem, Discalculia, CogniçãoResumo
Problema/questão
A Síndrome de Williams (SW) é um transtorno genético do neurodesenvolvimento caracterizado por um perfil cognitivo incluindo habilidades relativamente preservadas nas áreas social, musical, verbal e de reconhecimento de faces, juntamente com prejuízos no processamento visuoespacial e numérico (Mervis et al., 2000). Em relação às habilidades numéricas, estudos mostram que crianças e adultos com SW apresentam déficits na representação de magnitudes, com dificuldades em tarefas de contagem e comparação de números (Ansari et al., 2007; Paterson et al., 2006). Por outro lado, pesquisas relatam que indivíduos com SW demonstram elevado engajamento e interesse musical e, em alguns casos, desempenho semelhante ao de controles em tarefas de percepção musical (Levitin, 2005; Levitin & Bellugi, 1998; Levitin et al., 2004). Esse perfil tem sido frequentemente interpretado como evidência de uma dissociação entre cognição musical e numérica na SW.
Objetivos
O presente estudo teve como objetivo investigar a relação entre percepção musical e processamento não simbólico de magnitude numérica em crianças e adolescentes com Síndrome de Williams.
Método
Trinta participantes foram avaliados e divididos em três grupos (n = 10 por grupo): um grupo com SW, um grupo controle pareado por idade cronológica (CA) e um grupo controle mais jovem com desenvolvimento típico (YD). Os participantes realizaram uma tarefa de comparação de magnitudes não simbólicas e uma avaliação de percepção musical por meio da Montreal Battery of Evaluation of Amusia e da Montreal Battery of Evaluation of Musical Abilities.
Resultados
Não foram encontradas diferenças significativas entre o grupo SW e o grupo YD em todos os domínios musicais (p > .05). Em contraste, o grupo CA apresentou desempenho significativamente superior ao grupo SW em todos os domínios musicais (p < .01). Similarmente, na tarefa de magnitude numérica, não houve diferença significativa entre os grupos SW e YD (t(14) = 1.86, p = .085, d = 0.93), enquanto houve diferença significativa entre os grupos SW e CA (t(14) = 5.15, p < .001, d = 2.57). Considerando todos os participantes, o desempenho nas tarefas de percepção musical apresentou forte associação com a acuidade numérica, indexada pela fração de Weber (r = −0.81, p < .001).
Conclusões
Os resultados indicaram que indivíduos com SW apresentaram desempenho semelhante ao de participantes com desenvolvimento típico mais jovens em tarefas musicais e numéricas, mas diferenças marcantes em comparação com controles pareados por idade cronológica. Considerando todos os participantes, observou-se uma forte correlação negativa entre os valores da fração de Weber e a pontuação total nas tarefas musicais, indicando que limiares mais baixos para discriminação de magnitude numérica estão associados a melhor desempenho musical. Esse resultado apoia a existência de uma associação entre processamento de magnitude numérica e percepção musical ao longo do desenvolvimento. Além disso, embora as habilidades musicais sejam frequentemente descritas como relativamente preservadas na SW, os achados sugerem que essa preservação não é primariamente explicada por uma vantagem na discriminação analítica de características musicais.