TEMPERAMENTOS DA VIA LÁCTEA
uma proposta de cinco sistemas de afinação bem-temperada
Palabras clave:
bons-temperamentos, afinação musical, temperamento musical, pianoResumen
Problema/questão
Os sistemas de afinação na música ocidental podem ser organizados em quatro grandes categorias: afinação pitagórica, temperamentos mesotônicos, bons-temperamentos e temperamento igual. O temperamento pode ser definido como “o processo de alterar quintas e terças para equilibrar essas diferenças enquanto se mantém a oitava intocada” (Sturm, 2010, tradução nossa). Enquanto a afinação pitagórica, com quintas justas puras[1], gerou a coma pitagórica[2] os sistemas posteriores envolvem diferentes formas de diluição desta e da coma sintônica[3], buscando equilibrar pureza intervalar e mobilidade tonal. Durante o Renascimento, os temperamentos mesotônicos favoreceram determinadas tonalidades, limitando a circulação harmônica (Zumpano & Goldemberg, s.d.). A partir do Barroco, os bons-temperamentos possibilitaram a exploração de todas as tonalidades por meio da diluição desigual da coma pitagórica, preservando a identidade de cada harmonia. No século XX, consolidou-se o temperamento igual, que “satisfez as necessidades de compositores desde o Classicismo” (True, 2018, p. 72, tradução nossa) e padronizou as relações intervalares, mas reduziu as diferenças tímbricas entre harmonias. Diante desse contexto, coloca-se a seguinte questão: seria possível retomar o uso de bons-temperamentos na prática pianística contemporânea, especialmente em salas de concerto, de modo a ampliar a paleta expressiva sem comprometer a mobilidade tonal exigida pelo repertório atual?
Objetivos
Demonstrar a criação de cinco sistemas de afinação, que se enquadram na categoria dos bons-temperamentos, inspirados na Via Láctea: Norma-Cygnus, Scutum-Crux, Carina-Sagittarius, Orion e Perseus.
Método
A elaboração desses temperamentos fundamentou-se em método empírico-teórico, no qual a teoria orienta a prática e a prática valida os pressupostos teóricos. Foram aplicados conceitos relativos às comas pitagórica e sintônica, investigados por meio da prática de afinação de pianos ao longo de vários anos, com ênfase na percepção auditiva dos desvios intervalares. Paralelamente, “passos matemáticos (foram) desenvolvidos para obter bons-temperamentos otimizados” (Broekaert, 2019, tradução nossa) com a elaboração de uma calculadora de temperamentos musicais, possibilitando gerar gráficos sobre o comportamento das quintas e a diluição da coma pitagórica.
Resultados
Desta pesquisa, resultaram cinco sistemas de afinação bem-temperada, onde a mobilidade tonal se mostra empiricamente ampla. Com a exceção do sistema Norma-Cygnus, todos os demais diluem a coma pitagórica (CP) parcialmente, tornando suas quintas justas (5J) alargadas (+), comprimidas (-) ou mesmo puras (P), de acordo com a estética desejada. Contudo, auditivamente, percebe-se que todos eles se comportam como bons-temperamentos. Algumas estratégias estéticas foram aplicadas, como a pulsação do coração em Scutum-Crux (CP: 109,1%; sete 5J-, três 5JP, duas 5J+). Em Perseus (CP: 79,7%; seis 5J-, duas 5JP, quatro 5J+), a sequência de Fibonacci é aplicada às relações de batimento entre determinadas terças maiores e quintas justas. Carina-Sagittarius (CP: 66,0%; oito 5J-, quatro 5J+), por sua vez, apresenta algumas diluições mesotônicas. Orion explora algumas 3as e 5as puras, aludindo à pureza da criação.
Conclusões
Conclui-se que os sistemas desenvolvidos demonstram viabilidade acústica e musical, permitindo execução em todas as tonalidades e ampliando as possibilidades expressivas na prática pianística contemporânea, sem comprometer a mobilidade tonal.
Palavras-chave
bons-temperamentos, afinação musical, temperamento musical, piano
[1] Sem batimentos
[2] 23,46 cents (100 cents=1 semitom)
[3] 21,51 cents