Ferramentas composicionais e a extensão da cognição

Estudo de caso em uma composição

Autores/as

  • Tales Botechia USP

Palabras clave:

cognição estendida, processos criativos, externalismo, emergentismo

Resumen

Problema

Estudos em processos criativos frequentemente apontam como determinadas ferramentas composicionais afetam diretamente a obra musical, usualmente analisando a própria composição, para melhor entenderem os meios empregados e quais maneiras. Porém, ao invés de abordar as ferramentas partindo do produto final, visamos compreender, pela ótica cognitiva, a apropriação de determinadas ferramentas pelo indivíduo compositor.

Desta perspectiva, apoiando-se em teorias cognitivas emergentistas (Alonso, Ramos, 2022), afirmamos que ferramentas composicionais são parte constitutiva, não apenas causal, da cognição. Assim, analisamos um código criado em Python de uma composição, para se compreender como operam certas ferramentas cognitivamente.

Objetivos

  • Analisar processos empregados em uma composição;

  • Elencar princípios da Hipótese da Cognição Estendida (HCE);

  • Identificar, dentro do código, elementos que possam ser definidos como extensão da cognição;

  • Propor metodologias para analisar processos criativos envolvendo fatores ambientais acoplados à cognição.

Método

Entendendo a cognição como fenômeno que se estende para além do organismo, Clark e Chalmers (1998) afirmam que a compreensão sobre cognição possivelmente seria mais rica, pois a própria metodologia de pesquisa mudaria, passando a análise de processos 'internos' para processos externos.

Focando a análise em processos externos, desenvolvemos as etapas da metodologia. Primeiramente, estudamos o código, indicando processos composicionais empregados para estruturação da obra. Em seguida, contextualizamos brevemente as hipóteses externalistas da cognição, visando, principalmente, descrever quais conceitos fundamentam tais hipóteses. Por último, apontamos quais conceitos podem ser encontrados no código descrito.

Resultados

Inicialmente, o código gera uma melodia por Sistema-L (Lindenmayer, 1968). Esta melodia tem seus valores rítmicos aumentados, utilizando-a em um cânone de prolação a 4 vozes, com uma relação complexa de durações entre vozes, além de outras operações de transformação em cada voz. Os processos não ficam evidentes na partitura, pois a relação rítmica é quantizada e adaptada para uma notação proporcional.

Apontando os principais conceitos da HCE, conforme discorrem autores organizados por Menary (2010), destacamos: tese funcionalista, ação epistêmica e sistema acoplado.

A tese funcionalista defende que os processos executados pelo código são cognitivos, porque o "papel funcional de um estado/processo físico determina se esse estado/processo é mental/cognitivo" (Sprevak, 2019, p. 4).

A ação epistêmica atribui que tal estado/processo físico é feito para auxiliar ou expandir processos cognitivos. Portanto, podemos considerar os cálculos de prolação feitos pelo computador como ações epistêmicas, pelo desempenho ativo nos processos cognitivos do indivíduo.

Estas definições caminham com a noção de sistema acoplado: Clark e Chalmers (1998) consideram que essa interação retroativa entre humano e ambiente constitui, por si só, um único sistema cognitivo, porque todos os componentes do sistema têm um papel causal ativo. Ou seja, há alterações recíprocas entre indivíduo e o código programado.

Conclusões

Observar a interação entre compositor(a) e ferramentas, pela ótica externalista da mente, revela formas de identificar processos cognitivos através de estados físicos, como o código analisado. Ademais, tal interação pode ser integrada a análises da obra, de modo que o cruzamento de metodologias possa ampliar os estudos sobre processos criativos.

Publicado

2026-07-13