Aplicabilidade do modelo de Kenny e Gellrich para explicar processos cognitivos envolvidos na improvisação idiomática na música brasileira
Palabras clave:
cognição, expertise musical, improvisação idiomática, música brasileiraResumen
Problema/questão
A improvisação musical idiomática é uma tarefa de criatividade espontânea guiada por convenções e regras implícitas (Berkowitz, 2010). Diversos autores investigaram processos cognitivos que ocorrem durante essa atividade. No contexto do jazz estadunidense, Kenny e Gellrich (2002) propuseram um modelo cognitivo que explica como é gerado o material musical na improvisação por meio do conhecimento de base (relação escala/acorde), de referências (estrutura de 12 compassos no blues) e de mecanismos de feedback (automonitoramento). Neste modelo, o material musical é gerado de três maneiras: seleção de repertório (frases prontas), hierarquização (material relacionado à harmonia da música) e elaboração motívica (repetição e desenvolvimento do material musical). O modelo também lida com processos cognitivos mais específicos, como mecanismos de antecipação e recuperação em curto, médio e longo prazo. Nesta pesquisa, problematiza-se até que ponto este modelo, elaborado no contexto do jazz norte-americano, pode explicar os processos cognitivos de improvisação em estilos musicais brasileiros.
Objetivos
O objetivo deste trabalho é verificar a aplicabilidade de um modelo elaborado no contexto do jazz estadunidense em processos cognitivos relacionados à improvisação em estilos musicais brasileiros.
Método
Por meio de uma pesquisa bibliográfica feita com o auxílio das bases de dados Scielo, Scopus, Web of Science e o Portal de Periódicos da CAPES, quatro textos foram selecionados, lidos, fichados e categorizados. Essa análise gerou uma série de equivalências entre o conteúdo desses textos e o modelo cognitivo de Kenny e Gellrich (2002), que serão apresentadas na sequência.
Resultados e/ou Principais contribuições
Ao analisar o chamado jazz brasileiro, Piedade (2005) verificou referências em comum entre improvisações no jazz norte-americano e alguns estilos musicais brasileiros, como o uso de determinadas escalas musicais para a caracterização de ambos os estilos.
Ao investigarem interações musicais em uma improvisação do Trio Corrente, Xxxxx (Xxxx) apresentaram transcrições nas quais foi possível identificar processos descritos no modelo de Kenny e Gellrich (2002), que incluem recuperações de conteúdos da memória de curto e médio prazo para o desenvolvimento de materiais musicais, com uso de feedback auditivo produzido ao longo da performance.
Bonaldo (2022), por sua vez, investigou como pensavam improvisadores experts em uma tarefa de improvisação em um samba brasileiro. Seus resultados sugerem que os improvisadores participantes do estudo utilizaram os processos descritos no modelo cognitivo de Kenny & Gellrich (2002), como antecipação e diferentes estágios de geração de material musical hierárquico e motívico.
Ao estudarem representações mentais de pianistas em arranjos solos improvisados de música instrumental brasileira, Xxxxxx (Xxxx) verificaram que o extenso vocabulário rítmico regional desses pianistas foi uma variável encontrada na música brasileira não contemplada no modelo de Kenny e Gellrich (2002).
Conclusões e/ou Implicações
A partir dos resultados apresentados, conclui-se que foi possível identificar aspectos do modelo cognitivo de Kenny e Gellrich (2002) que tornam possíveis o uso do modelo para a explicação de processos psicológicos que ocorrem na improvisação em estilos musicais brasileiros. Entretanto, a complexidade dos aspectos rítmicos regionais sugere a existência de uma expertise improvisatória típica da música brasileira que não se adequa ao modelo em questão.