Construção da expressividade na música brasileira:
identidade e intersubjetividades compartilhadas
Palabras clave:
Expressividade, intersubjetividade, identidade musical, Música BrasileiraResumen
Problema
Na prática instrumental da música de concerto ocidental, a aprendizagem de técnicas e de modos de expressar emoções torna a expressividade um ato performativo. A construção das decisões interpretativas contempla critérios de valor estético e de realização que abarcam a intencionalidade expressiva em contextos específicos. Segundo Alessandri et al. (2016), o entendimento desses valores é central para compreender a experiência performática e crítica. XXXX propôs que a expressividade se relaciona a singularidades compartilhadas por pianistas frente a compositores brasileiros. Complementarmente, Ribeiro (2018) discute como o pianismo e a hibridização de linguagens moldam a identidade do intérprete. Diante da trajetória da primeira autora — pianista basca com formação na Europa e no Brasil — este estudo busca conhecer valores estéticos e de realização em pianistas de contextos socioculturais distintos.
Objetivos
Explorar como os valores estéticos e a realização de obras do repertório brasileiro são compartilhados por músicos de contextos socioculturais distintos
Método
Estudo exploratório com dois pianistas (P1 e P2) de nível expert que possuem no seu repertório obras do Ciclo Brasileiro, de Villa-Lobos. Na primeira etapa, o foco recaiu sobre o relato de experiências prévias com o repertório nacional. A segunda etapa compreendeu um grupo focal com a primeira autora e os dois participantes.
Resultados
A análise comparativa revelou perfis de identificação distintos fundamentados na relação entre o self e a obra. Para P2, a identificação ocorre por afinidade e enculturação, sendo a música percebida como uma "língua materna" orgânica. Nesse perfil, a expressividade é uma extensão direta da identidade, caracterizada por um "gesto-sentido" incorporado onde a mediação cognitiva opera de forma automática. Sob a ótica de Merleau-Ponty (1945/1999), P2 manifesta o corpo próprio como o centro de uma intencionalidade operante: o sentido da obra não é um objeto de pensamento, mas algo que já integra os seus gestos através do hábito, que aqui funciona como uma potência motora que dispensa a representação intelectual consciente.
Em contraste, P1 apresenta uma identificação construída, marcada por uma dissociação consciente entre a sua personalidade e o caráter do repertório. Para este pianista, a performance configura-se como uma "atuação" teatral, exigindo a construção de uma persona pública para preencher as exigências expressivas da obra. Enquanto P2 é guiada por uma vivência cinestésica prévia, P1 utiliza o entendimento acadêmico e a análise estrutural como pontes para a segurança executiva. Nessa perspectiva, a mediação em P1 distancia-se da unidade pré-objetiva, aproximando-se de uma intencionalidade de ato. Para P1, o corpo funciona como um corpo-objeto sob o monitoramento da imaginação afetiva para evocar estados que não lhe são orgânicos de imediato.
Implicações
Os dados indicam caminhos fenomenológicos divergentes entre o 'ser' e o 'representar'. Sugere-se que a proficiência expert pode ser singularizada tanto pela intuição orgânica quanto pelo rigor do gesto construído. A distância entre o self e a obra constitui, portanto, um espaço de mediação técnica e cognitiva onde a identidade performática é deliberadamente forjada, abrindo perspectivas para investigações futuras sobre a plasticidade do gesto expressivo em diferentes contextos de enculturação.