A Construção Hierárquica do Afeto na Música

Valência e Ativação como Qualidade Residual frente à Intensidade

Autores/as

Palabras clave:

Cognição, Música, Teoria da Emoção Construída, Modelo Circumplexo de Afeto, Inteligência Artificial

Resumen

Problema/questão

O estudo das emoções musicais tem sido historicamente informado predominantemente pelo Modelo Circumplexo de Russell (1980), que organiza o afeto em um mapa bidimensional de Valência e Ativação. Contudo, essa visão pressupõe uma natureza reflexiva, em que a emoção causa a resposta aos itens e negligencia a estrutura de magnitude do sinal. Em contrapartida, a Teoria da Emoção Construída (Barrett, 2017) sugere que o cérebro constrói a experiência afetiva integrando sinais interoceptivos e externos. Frente à evidência da estrutura de um Fator Geral como estrutura primária este trabalho verifica como a hierarquização do afeto, com a primazia da Intensidade, redefine o afeto no âmbito da cognição musical e explica os limites da percepção afetiva.

Objetivos

Este trabalho propõe um Modelo Hierárquico do Afeto Musical. O objetivo é demonstrar que a Intensidade não é um subproduto geométrico, mas a dimensão primária e organizadora da percepção musical, sobre a qual as distinções qualitativas de Valência e Ativação são construídas.

Método

Adotou-se uma abordagem teórica integrada, sustentada por análises de dados secundários de dois estudos de larga escala: a validação do Musical Emotion Evaluation Test (MEET; N=200) e o corpus AMG1608 (N=1608). Utilizou-se Análise de Componentes Principais (PCA) e Modelagem por Equação Estruturais com Mínimos Quadrados Parciais (PLS-SEM) para mapear a estrutura de variância dos relatos humanos, e o Mapeamento Residual Simétrico (Symmetric Residual Mapping) para isolar a qualidade afetiva pura da magnitude sônica em fonogramas.

Resultados

As evidências empíricas confirmam a hipótese hierárquica, já que a Intensidade (PC1) explica entre 24% e 70% da variância total do afeto, atuando como o alicerce da percepção. Ao isolarmos essa Intensidade, revelamos que a cognição de três dos quatro quadrantes do modelo (alto Valência e alta Ativação; baixa Valência e alta Ativação; baixa Valência e baixa ativação) é acusticamente residual e decodificável. Contudo, verifica-se que no quadrante de alta Valência e baixa Ativação, também chamado de Serenidade, o sistema humano inverte a lógica física, suprimindo a magnitude para preservar o relaxamento. Esse achado demonstra que a percepção do afeto na música é ativamente construído por meio de filtros cognitivos modulares, o que explica por que modelos computacionais puramente reativos falham em estados afetivos de alta ordem.

Conclusões

A transição do modelo bidimensional plano para um modelo hierárquico formativo permite uma compreensão mais acurada da trajetória do aprendiz e do ouvinte. Conclui-se que a educação e a cognição musical devem considerar a Intensidade como a base do processamento afetivo. A incapacidade de mecanismos de IA de mimetizar certos afetos, como os que se agrupam no quadrante Serenidade, levanta validade da tese de Barrett (2017) no âmbito musical, ou seja, o afeto é uma construção soberana de cada sistema nervoso, mediada por filtros culturais e estéticos que perpassam a acústica bruta.

Biografía del autor/a

Frederico Pedrosa, UFMG

Professor Adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde coordena o Núcleo de Assessoramento à Pesquisa (NAPq) da Escola de Música. Atua como docente permanente no PPG Música e colaborador no PPG Neurociências (UFMG). Sua produção científica concentra-se na interseção entre Musicoterapia, Psicometria e Inteligência Artificial, com ênfase no desenvolvimento de tecnologias assistivas e modelos computacionais para saúde mental. Doutor em Música (UFMG), Mestre em Música (UFPR) e Bacharel em Musicoterapia, especializando em Inteligência Artificial (UFV). É líder do grupo Centro de Estudos do Gesto Musical e Expressão (CEGeME-CNPq) e pesquisador nos grupos CEMT-CNPq e NEPIM-CNPq. Membro da comissão da Brazilian Journal of Music Therapy (Revista Brasileira de Musicoterapia - Qualis A2 2021-2024), além de atuar como revisor de periódicos nacionais e internacionais. Foi vencedor dos Prêmios Cybelle Loureiro e Lia Rejane de Pesquisa (2024/2025). É instrumentista (violeiro e baixista) nos grupos Herança Ancestral e Outro Gato Gipsy Jazz. GitHub: https://github.com/FredPedrosa/

Yasmim Rezende , Universidade Federal de Minas Gerais

Graduanda em Musicoterapia (UFMG). Possui ensino médio pela Escola Estadual Monte Sinai (2024). Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Música.

Suelen Silva, Universidade Federal de Minas Gerais

Graduanda em Musicoterapia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Possui interesse nas áreas de neurociência, cognição musical e aplicações terapêuticas da música.

Publicado

2026-07-13