Do individual ao coletivo
eficácia coletiva e abordagem biopsicossocial da performance musical em música de câmara
Palavras-chave:
Performance Musical, abordagem biopsicossocial, eficácia coletiva, música de câmaraResumo
Instrumentistas estão expostos a elevadas exigências técnicas e interpretativas associadas à busca pela excelência artística. Embora tais demandas sejam centrais para o desenvolvimento da performance musical, seus impactos sobre a saúde física e mental dos músicos nem sempre são considerados de forma sistemática no contexto do ensino instrumental (Jacukowicz, 2016). Estudos indicam que distúrbios musculoesqueléticos relacionados à prática instrumental (PRMD) afetam mais de 80% dos músicos profissionais ao longo de suas carreiras (Ackermann et al., 2012) e cerca de 79% dos estudantes de música no início da formação superior (Brandfonbrener, 2009). Além disso, músicos apresentam elevada incidência de distúrbios emocionais, como ansiedade, depressão e distúrbios do sono (Matei & Ginsborg, 2022).
Apesar do crescente interesse pelos desafios dos instrumentistas, o ensino da performance permanece centrado na dimensão técnico-interpretativa, deixando em segundo plano aspectos psicofísicos e socioculturais que também influenciam o desempenho e o bem-estar dos músicos (Domingues & Noda, 2021). A perspectiva biopsicossocial permite compreender a performance instrumental como resultado da interação entre processos corporais, psicológicos e sociais (Domingues & Noda, 2025).
A prática de música de câmara constitui um contexto relevante para observar essas interações, pois envolve processos de cooperação, escuta compartilhada e regulação interpessoal entre os músicos (Veloso & Araújo, 2025). Entretanto, podem gerar tensões e competitividade na ausência de apoio e confiança entre os participantes. Essas atividades podem desenvolver-se em um Espaço Seguro de Performance, compreendido como um ambiente que favorece a segurança física e psicoemocional necessária para o desenvolvimento das atividades artísticas (Domingues & Pedrosa, 2025).
Este trabalho investiga como a prática coletiva contribui no desenvolvimento da performance e para o bem-estar dos instrumentistas. Para isso, apresenta reflexões sobre a influência da prática de música de câmara nas três dimensões da performance musical — psicofísica, técnico-interpretativa e sociocultural (Domingues & Noda, 2025) — a partir da perspectiva da eficácia coletiva, entendida como as crenças compartilhadas do grupo acerca da capacidade das ações coletivas de alcançar objetivos e superar desafios (Bandura, 2008).
A pesquisa adota uma abordagem qualitativa autoetnografica, analisando experiências performáticas em música de câmara. Observados três recitais, que incluim peças solo a formações de trio, realizados em contextos distintos e com variações na formação dos músicos.
Os dados coletados —vídeo e acompanhados por um diário reflexivo de performance— foram analisados à luz do conceito de eficácia coletiva, considerando organização espacial, consciência corporal, o comportamento psicofísico e a variável postural (posição sentada e em pé) como elemento comparativo entre as performances.
As observações e analises indicam como experiências de prática coletiva favorecem o desenvolvimento de processos metacognitivos associados à autorregulação da performance musical. A abordagem biopsicossocial da performance possibilitou uma ampliação da consciência corporal, da escuta ativa e da organização do estudo instrumental, contribuindo o fortalecimento da autoconfiança e da capacidade de lidar com desafios performáticos.
Ao mesmo tempo esses ambientes de prática promovem segurança, bem-estar, cooperação e apoio entre os participantes, contribuindo para o desenvolvimento integral do instrumentista como um ser biopsicossocial e na construção de práticas pedagógicas mais sustentáveis no ensino da performance musical.