Entre a Percepção e a Semântica

Uma Análise de Discurso da narrativa do timbre nos Tratados de Orquestração

Autores

Palavras-chave:

Timbre, Orquestração, Metáfora, Análise de Discurso, Percepção

Resumo

Problema/questão

A análise dos tratados de orquestração revela um fenômeno que extrapola a mera instrução técnica: a onipresença de um campo semântico ricamente figurativo na descrição do timbre (Wallmark, 2019). A apreensão do timbre não se restringe a parâmetros estritamente acústicos, mas projeta-se sistematicamente sobre domínios da experiência sensorial e corporal, de modo que a própria linguagem técnica da orquestração se estrutura por meio de um campo semântico metafórico que media a percepção e o discurso (Siedenburg et al., 2016; McAdams, 2019; Noble et al., 2020; Rosi et al., 2022). Portanto, o problema investigado é: Qual o papel da metáfora no processo perceptivo e discursivo sobre o timbre nos tratados de orquestração? 

Objetivos

Geral: Compreender o papel da metáfora no discurso sobre timbre nos tratados de orquestração.

Específicos: (1) realizar uma revisão bibliográfica acerca do fenômeno da metáfora e das pesquisas psicoacústicas multimodais em relação ao timbre; (2) analisar o discurso sobre timbre, em especial sobre a flauta, identificando mudanças e/ou continuidades discursivas ao longo do tempo.

Método 

O estudo articula revisão bibliográfica transdisciplinar, ancorada na Teoria da Metáfora Conceitual (Lakoff; Johnson) e na literatura sobre semântica do timbre e psicoacústica. Utiliza-se a Análise do Discurso (Orlandi, 2001), para compreender o papel da metáfora nos tratados de Hector Berlioz (1843/1882), Nikolai Rimsky-Korsakov (1913), Walter Piston (1955) e Samuel Adler (1986/2016), em diálogo com textos/citações de Robert Schumann, Arnold Schoenberg e Pierre Boulez. Para viabilizar a análise, delimita-se a flauta transversal como instrumento-foco. 

Principais contribuições

Os resultados indicam que a retração de descritores subjetivos acompanha o declínio de narrativas românticas. Contudo, a redução dos adjetivos não significou o abandono da metáfora, a linguagem metafórica permanece como o alicerce para a apreensão de um fenômeno que, apesar de fisicamente mensurável, guarda uma natureza intangível.

Implicações

Sugerem-se desdobramentos que expandam a presente metodologia para outros grupos instrumentais, como as famílias dos metais ou das cordas, cujas particularidades físicas podem gerar novos campos metafóricos. Além disso, pesquisas futuras poderiam contemplar a análise de obras específicas do repertório contemporâneo à luz das dimensões semânticas identificadas nos tratados de sua época.

Biografia do Autor

Igor Leão Maia, Universidade Federal de Minas Gerais

Igor Maia é compositor e regente, professor de composição na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, Brasil). Doutor em composição pelo King’s College London (Inglaterra), é professor visitante na McGill University (Canadá) em 2025-2026 e foi um Ernst Mach Scholar na Anton Bruckner Private University (Áustria) em 2023. Foi compositor residente junto ao Quasars Ensemble (Eslováquia) em 2025 e da Orquestra Sesiminas (Brasil) em 2024. Participou de diversos festivais e concertos na Europa, Argentina, Brasil, Estados Unidos e Japão e foi premiado em concursos nacionais e internacionais.

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Publicado

2026-07-13