Periodicidade, harmonicidade e plasticidade auditiva: um modelo perceptivo para a cognição musical primária
Keywords:
Cognição musical, Percepção musical, Harmonicidade, Tonotopia, Plasticidade auditivaAbstract
O avanço das técnicas de investigação neurocientífica — como a Ressonância Magnética Funcional (fMRI), a Eletroencefalografia (EEG) e os potenciais evocados — tem mostrado que o processamento sonoro se apoia em uma arquitetura neurobiológica hierarquicamente organizada. Desde a cóclea até o córtex auditivo, as frequências são mapeadas de forma sistemática (tonotopia), preservando a estrutura espectral do som e permitindo sua integração perceptiva (BÉKÉSY, 1960; ZATORRE; BELIN; PENHUNE, 2002). Esses mapas não são fixos: apresentam plasticidade e podem ser modificados pela experiência e pelo treinamento musical (MERZENICH et al., 1975; PANTEV et al., 1998). Do ponto de vista físico, a percepção de altura (pitch) está associada à periodicidade — isto é, a repetição regular de um padrão vibratório ao longo do tempo (TERHARDT, 1974; OXENHAM, 2013). Em instrumentos de corda, na voz humana e em muitos sons naturais, essa periodicidade aparece como organização harmônica: frequências que mantêm entre si relações aproximadamente múltiplas inteiras. A série harmônica é o modelo matemático ideal dessa estrutura; já a harmonicidade refere-se à maneira como essa organização se manifesta nos sons reais (MOORE, 1997; PARNCUTT, 2019). Este trabalho apresenta uma investigação teórica baseada em revisão interdisciplinar nas áreas de acústica, bioacústica, psicoacústica e cognição musical, trazendo um modelo organizado em três níveis interdependentes: (1) a periodicidade como fundamento da percepção de altura; (2) a harmonicidade como forma estável de organização espectral derivada dessa periodicidade; e (3) a plasticidade auditiva como mecanismo que permite a modulação e o refinamento dessas disposições ao longo da experiência. Nesse enquadramento, sons com harmônicos bem organizados tendem a ser percebidos como alturas mais claras e estáveis. Há evidências consistentes de que restrições biológicas delimitam a emergência de regularidades perceptivas. Estudos psicoacústicos indicam que o sistema auditivo integra relações entre frequências — e não apenas sons isolados, como ilustra o fenômeno da fundamental ausente (TERHARDT, 1974; MOORE, 1997; OXENHAM, 2013), sugerindo que a cognição musical opera sobre partes acessíveis de um domínio informacional mais amplo. Isso sugere uma convergência funcional entre a organização espectral dos sons periódicos e a arquitetura do sistema auditivo. Na literatura, persiste o debate entre abordagens que enfatizam a enculturação musical (KRUMHANSL, 1990; SLOBODA, 1985; PATEL, 2008; McDERMOTT et al., 2016) e aquelas que destacam restrições bioacústicas e neurofisiológicas na organização perceptiva (HELMHOLTZ, 1954; TERHARDT, 1974; MOORE, 1997; OXENHAM, 2013; PARNCUTT, 2019). Enquanto a primeira vertente ressalta o papel da aprendizagem cultural, a segunda aponta para propriedades bioacústicas e neurobiológicas. Neste trabalho, argumenta-se que o universal não reside em sistemas musicais específicos, mas nas disposições perceptivas que delimitam o campo dentro do qual diferentes culturas estruturam seus materiais sonoros. Por cognição musical primária entende-se o conjunto de disposições associadas à sensibilidade à periodicidade e à harmonicidade, sobre as quais a plasticidade neural atua, refinando e estabilizando padrões ao longo da enculturação. Integrando física do som e organização perceptiva, o modelo propõe a harmonicidade como princípio estrutural da cognição musical primária, segundo o qual disposições perceptivas condicionam — sem determinar — a diversidade musical.